O Brasão do Príncipe
Revista Fantástico - número 3

Assim como Pigmaleão se apaixonou por uma estátua e Tristão sublimou Isolda, o acrofóbico detetive Scottie (James Stewart) fantasiou Madeleine (Kim Novak) e tentou em vão ressuscitá-la, como Orfeu fizera com Eurídice. Aqueles a quem os deuses querem destruir primeiro enlouquecem. E assim Scottie, o mais atormentado mocinho de Hitchcock, termina a vertigem de Um Corpo que Cai à beira do abismo e da loucura. Se Rebeca era a “mulher inesquecível”, Mrs. Danvers foi a “governanta inesquecível”. Fiel à defunta patroa,
transforma a vida da sucessora de Rebeca num inferno afinal purgado pelo fogo. Sempre de preto, a sombria e patológica criada do senhor De Winter (Laurence Olivier) paira acima de todas as vilãs de Hitchcock. Charlie (Joseph Cotten), o galante tio de Sombra de uma Dúvida, é um gentleman que se investe da missão de punir viúvas gordas, ricas e perdulárias, despachando-as para o além. A mais perfeita tradução do cinismo moral, quase mata a sobrinha que, além de sua xará, o acreditava um senhor acima de qualquer suspeita, digno de seu amor platônico.

Antes de ser o homem que sabia demais, James Stewart foi o homem que via demais, por ser fotógrafo, voyeur, e não ter o que fazer confinado a uma cadeira de rodas. Paparicado por duas mulheres, passa o tempo xeretando a vizinhança com um par de binóculos, até
desvendar um crime que quase lhe custa a vida e proporciona a Hitchcock um fascinante exercício de suspense e comédia sofisticada, Janela Indiscreta. Um dos vários marmanjos de Hitchcock dominados pela mãe, Alexander Sebastian (Claude Rains), o chefe dos espiões nazistas infiltrados no Brasil, é um dos motivos que fizeram de Interlúdio uma obra-prima do thriller noir. Fino, elegante, charmoso, é uma das figuras mais complexas e patéticas criadas pelo mestre.

Frances Stevens, a aristocrática plebéia de Ladrão de Casaca, repete a caça ao homem de Lisa Freemont, a persistente noiva que Grace Kelly encarnara em Janela Indiscreta. A presa da vez é um aposentado Arsène Lupin americano (Cary Grant), recluso na Côte d’Azur, nas vizinhanças de Mônaco, onde em breve a belíssima e chiquíssima Grace se tornaria uma princesa de verdade. Um bem-sucedido publicitário nova-iorquino (Roger Thornhill) vê-se envolvido numa das tramas mais bizarras boladas por Hitchcock. Confundido com um agente da CIA, codinome George Kaplan, Roger (Cary Grant) sofre o diabo nas garras de um contrabandista de segredos militares e protagoniza algumas das perseguições mais eletrizantes já vistas no cinema. Intriga Internacional foi o molde de onde saiu a série James Bond.

Em matéria de dupla personalidade, poucos se equiparam ao serial killer de Psicose Norman Bates. Mata a mãe e, para compensar o matricídio, assume o espírito da senhora Bates, um caso de possessão macabra purgado com sangue. Interpretado por Anthony Perkins, Bates é um psicopata emblemático da insanidade moderna. Inteligente, sarcástico e sem escrúpulos, o desocupado e sutilmente gay Bruno Anthony (Robert Walker) é o avesso complementar do tenista Guy Raines (Farley Granger).

Bruno quer que alguém mate seu pai, Guy adoraria que alguém matasse sua mulher, mas só Bruno tem coragem de executar o crime cruzado de Pacto Sinistro. Se nunca houve uma mulher como Gilda, nunca houve uma espiã como Alicia. Doidivanas, alcoólatra e filha de um traidor, Alicia Huberman (Ingrid Bergman) compensa o crime do pai aceitando servir de isca da CIA numa operação de contra-espionagem no Rio de Janeiro que a leva para a cama do chefão e, por pouco, não a leva para o túmulo, lentamente envenenada com arsênico.



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