Ryan seguiu, então, para outro distrito, o 91º, que abriga os detidos durante os finais de semana. “Ele saiu andando normalmente mas, ao chegar, teve de sair do carro amparado, pois estava muito grogue”, diz Flávia. Sabino tirou-lhe a pressão: 17 por 12. Ministrou-lhe, então, 25 miligramas de Capoten para baixá-la, mais 10 miligramas de Dienpax e, antes de ir embora, outro comprimido. Segundo Flávia, o médico teria dito: “Toma, Ryan: esse é um dos meus”.

Voltaria às 9h, com os advogados. Meia hora depois, Sabino ligou para a irmã de Ryan, dizendo que queria receber os R$ 5 mil da consulta e outros R$ 500 pelos medicamentos. “Ele fez questão de receber tudo em dinheiro”, diz Andrea. Como não tinha toda a quantia em cash, ela entregou ao médico, que passou em sua casa pouco depois do telefonema, R$ 3 mil em notas de R$ 50 e um cheque de R$ 2.500. Por semanas Andrea não percebeu nenhuma movimentação em sua conta referente a esse cheque. No dia 6 de março, porém, ele foi descontado. “Ele ainda teve essa coragem”, ela diz. Por sugestão do médico, naquela madrugada Andrea também despachou seu motorista para a delegacia, levando R$ 100, que foram entregues a um carcereiro. “É bom, caso Ryan queira pedir uma pizza”, disse Sabino.
Minutos antes das 7 horas, o celular de Andrea tocou. Era o carcereiro, que disse: “Corra para a delegacia que ele está passando muito mal”. Ligaram para o doutor Sabino, que recomendou, por telefone, mais duas ampolas de Fenergan. Na chegada ao DP, a notícia: “Assim que vi a cara do delegado, comecei a chorar”, afi rma Flávia. “Ele disse: ‘Calma, calma... Seu irmão faleceu’”.
Ryan Gracie estava sozinho num cubículo com cerca de 6 metros quadrados. Outros presos disseram que ele arfava muito, emitindo um ronco estranho desde antes do amanhecer. Nenhuma vez teria pedido socorro. De repente, fi cou quieto. Ryan estava sentado num canto da cela. Suas pernas formavam um leve arco no chão sujo. Seu corpo pendia para o lado esquerdo. Seus olhos, semiabertos, miravam o vazio. Sua luta, enfi m, terminara.
Com reportagem de Paulo Rubens Sampaio, Tiago Petrik e Yuri Vasconcelos