Como muitos de seus amigos, Ryan cresceu pegando ondas, perambulando pelos shoppings e dando pouca importância às aulas, embora tenha completado o ensino médio. “Nunca o ouvi dizer que pretendia ser médico, advogado ou engenheiro. Ele sempre sonhou ser um lutador”, conta a mãe. Ryan começou a treinar jiu-jítsu aos 3 anos de idade. Pré-adolescente ousado e extremamente ativo, viveu uma experiência marcante, embora quase não a mencionasse depois de adulto: foi dublê do ator Jonas Torres, o Bacana de Armação Ilimitada, série que marcou a vida de muita gente nos anos 80. “Ele tinha 13 anos e viajou muito para fazer gravações”, conta a mãe. “Ele fazia as cenas mais perigosas, como surfar, pular muros, saltar das pedras no mar, correr de bicicleta ou de skate”, diz a noiva, Andrea.

“Eu me preocupava com as brigas em que ele se metia, mais grandinho”, diz a mãe. “Mas elas me pareciam coisas normais, típicas da idade.” Com os anos, porém, essas rixas assumiram um tom mais sério. Aos 17 anos, chamado de “fi lho da puta” por um policial, Ryan destroçou-lhe o nariz e os supercílios com uma cabeçada devastadora. “Ele jamais levou um desaforo para casa.
Era parte de sua natureza”, diz a irmã Flávia. O temperamento explosivo fez com que Ryan se metesse em muitas outras contendas de rua. Em uma das mais célebres, contra o lutador Tico – Sebastião Gonçalves Filho, seu rival confesso –, Ryan, no melhor estilo Mike Tyson, arrancou com uma dentada um considerável naco da orelha direita do adversário. No YouTube há um vídeo amador dessa luta. Em outra ocasião, durante um churrasco na Academia Gracie da Barra, Ryan encarou um inimigo insólito: um enorme cão boxer, que avançou sobre ele com os dentes à mostra. Ryan o enfrentou aos gritos. Minutos depois, a fera deitou-se placidamente ao seu lado. A freqüência desses episódios consolidou a fama de Ryan como um dos expoentes dos chamados bad boys, praticantes de jiu-jítsu violentos, muitos inflados por anabolizantes, que saem pela noite criando arruaças.
Quase sempre vitorioso nessas rixas, Ryan passou a ser cada vez mais endeusado pelos amigos. Em troca, contudo, acumulou uma coleção de desafetos – rivais que encarou nos ringues ou ruas, policiais que surrara, maridos ou pais de mulheres que levara para a cama. Criou, aos olhos de muitos, uma fama de brigão e mulherengo. Aparentemente justa. O próprio pai, Robson, declarou em 2004 à revista Gracie: “Ryan é doce de leite na boca das meninas, desatador de elástico de calcinhas de mulher sabida”.
Nenhum desses inimigos, porém, revelou-se tão ardiloso e implacável quanto ele próprio. A fúria de Ryan Gracie, um Mike Tyson de quimono, jamais se limitou aos adversários. Sempre teve um quê de impulso autodestrutivo. Um traço que, ao longo da vida, o fustigou numa escalada permanente. Já adulto, e fazendo incursões cada vez mais perigosas pelo território das drogas, esse impulso o subjugou.
Tudo indica que, nos últimos cinco anos, Ryan mergulhou nas drogas com a mesma voracidade com que se entregava ao combate. Ryan sofria. “Ele estava fugindo dele mesmo”, diz o pai, Robson. “Tentamos fazer um acompanhamento psicológico, mas ele se recusou.” Sob os olhares impotentes da família e dos amigos, seus sintomas foram se agravando. Ansiedade, crises de pânico, depressão, síndromes de abstinência cada vez mais severas e, por fi m, surtos persecutórios pavorosos.
No último deles, na manhã da véspera de sua morte, Ryan deixou seu apartamento – cuja sala ostentou, anos a fio, um ringue de verdade como peça principal da mobília – com a cabeça fritando e uma enorme faca de churrasco nas mãos. Ameaçando-o com a lâmina, roubou o carro de um senhor idoso que passava. Dirigiu transtornado por menos de 200 metros, até enfiar o veículo no banco de uma praça vizinha. Assaltou, então, um motoboy, para escapar. Enquanto tentava ligar a moto, o rapaz o golpeou na testa com o capacete. Duas dezenas de motoqueiros juntaram-se ao colega e dominaram Ryan, até que policiais o levassem.
Ryan Gracie costumava dizer aos amigos que, como Jesus Cristo e Ayrton Senna, morreria aos 33 anos. Menos de 24 horas depois, a profecia se cumpriu. O gladiador estava morto.
Os laudos sobre sua morte apontaram uma combinação explosiva: drogas (cocaína e maconha) e pelo menos cinco medicamentos: um ansiolítico (Dienpax), um antialérgico (Fenergan), um antipsicótico (Leponex), um antialucinógeno (Haldol) e um anticonvulsivante (Topamax). A causa mortis foi anunciada dias depois. “A combinação dos cinco remédios com a cocaína e a maconha remanescentes em seu organismo produziu uma grave depressão do sistema nervoso central e uma parada cardiorrespiratória”, diz o médico Laércio de Oliveira, legista do Instituto Médico Legal (IML) que assinou o laudo.
Coube a Ryan, evidentemente, a responsabilidade pela presença de vestígios de maconha e cocaína em seu sangue. Quanto à medicação, ela foi ministrada por uma fi gura enigmática: o médico baiano Sabino Ferreira de Farias Neto, 56 anos, cuja clínica, a Maxwell, trata casos de dependência química na cidade paulista de Atibaia.
Sabino vive agora uma situação delicada. “Estou inclinado a denunciá-lo por homicídio doloso, pois creio que ele assumiu o risco de matar Ryan ao ministrar-lhe uma combinação tão perigosa de medicamentos”, diz o promotor Paulo D’Amico Jr. à revista FANTÁSTICO. “A quantidade de drogas de diferentes classes usadas numa mesma situação pode potencializar as interações entre os medicamentos e os efeitos colaterais, especialmente cardíacos”, afirma o psiquiatra Marcelo Feijó de Mello, professor da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp).
“Como me arrependo de ter procurado esse médico”, diz Vera Gracie, mãe de Ryan. “Na hora, a gente acha que está fazendo o melhor para o filho, mas depois percebe que fez o pior”, ela diz. “Esse maluco matou o Ryan com um monte de remédios e terá de pagar por isso.”
Cabelos grisalhos, longos, desalinhados, Sabino diz viver hoje um calvário. “Preferia carregar a cruz que Jesus Cristo carregou e viver em paz a passar pelo que estou passando”, afi rmou. “Dei a Ryan cinco medicamentos para acalmá-lo e um para baixar a pressão arterial. Se eu tivesse de fazer tudo de novo, agiria do mesmo modo”, afi rma. Após essas declarações, o doutor Sabino saiu de circulação.
Os primeiros advogados que contratou abandonaram a causa. Sua clínica não atende mais telefonemas da imprensa e enfrenta a ameaça de uma evasão de pacientes.
Maxwell, o nome da clínica, é uma referência ao psiquiatra inglês Maxwell Jones, um dos pioneiros da tese de que os pacientes aprendem a superar difi culdades com a ajuda de outros na mesma situação. Amplo casarão numa das avenidas centrais de Atibaia, a clínica lembra um spa, com piso de mármore, salão de jogos e até um piano na sala. Possui 50 suítes, individuais ou duplas, para casos em que familiares acompanham os pacientes. O lugar abriga ainda um restaurante, lanchonete, academia, piscina e sala de televisão. A mensalidade varia de R$ 10 mil a R$ 30 mil. Ali já estiveram internados, entre outros, o cantor Rafael, ex-vocalista do grupo Dominó, e o ator Maurício Mattar, ex-marido de Flávia Gracie, irmã de Ryan. Foi Mattar quem, após uma internação para livrarse do álcool e das drogas, recomendou a clínica aos familiares de Ryan.