O tempo passa...
Revista Fantástico - número 3

O que desencadeia a depressão?
Na velhice, às vezes, ela aparece como um processo independente de qualquer fator. Um dia, a pessoa acorda e sente-se diferente, depois se sente pior e entra num quadro depressivo. Uma situação de vida que entristece, e para a qual não se vê saída, pode ser um gatilho. Ao contrário, se você se mantém ativo, integrado ao mundo, convivendo com as pessoas, diminuem as chances de depressão. Várias doenças neurológicas podem começar com depressão: a doença de Parkinson e o próprio Alzheimer. É preciso entender esses processos, para tratá-los com drogas, que é o que funciona contra a depressão.

É possível prevenir a depressão?
Sabe-se ainda muito pouco sobre a depressão. Até hoje, sequer se demonstrou que o exercício físico pode preveni-la. Há atletas que fi cam deprimidos. Não se pode dizer que a depressão seja um fenômeno meramente bioquímico, de neurotransmissores cujas concentrações se desorganizam no cérebro. Além de alterações neurobioquímicas, há as repercussões psicológicas, porque o cérebro funciona como um conjunto. Essas doenças em que não se consegue separar o físico e o psicológico são muito complicadas. Há jovens deprimidos. Há crianças deprimidas. O pior da depressão é que não se encontra nada de objetivo como desencadeador. E aí a família começa a infernizar a vida do deprimido; quer arrancá-lo à doen ça, arrastá-lo para festas. É impossível, para o deprimido, expor-se, ter de sorrir, ser bem-educado. A família “conclui” que o doente não reage porque não quer. Mas a doença é esta: o deprimido não consegue reagir. Se conseguisse reagir, não estaria doente. Felizmente já há muita coisa efi caz em termos de medicação.

É verdade que os velhos perdem progressivamente a memória?
Há remédios efi cazes para manter ou recuperar a memória? Na memória, de fato, está envolvido um problema de atenção. Se se fazem cinco coisas ao mesmo tempo – estou falando no telefone, escrevendo no computador e ouvindo uma conversa –, muita coisa passa e não fica. Estão começando a surgir as primeiras drogas para reduzir a perda de memória na velhice.

Como funciona o mecanismo da memória?
Há neurônios que transmitem a informação em metros por segundo. Para tirar o pé de cima de um cigarro aceso, o impulso é transmitido em centésimos de segundo: a informação vai até a medula, volta imediatamente e faz afastar o pé. Na memória, a condução dos estímulos é muito mais lenta. Ela funciona por repetição. Por isso é preciso ler dez vezes um poema para decorá-lo. E se depois de decorar um poema você o deixa de lado por dez anos, quando você o retoma, na primeira vez não lembra nada, porque mudou a conformação da sinapse; mas bastam duas leituras e você lembra o poema inteiro. A conclusão é que a memória pode ser exercitada.

Como falar em qualidade de vida num país em que a maioria da população depende de uma estrutura pública de saúde deficiente?
É preciso pensar, primeiramente, em prevenção das doenças. Tudo depende da vida que se vive e de evitar a doença antes que ela se instale. De um ponto em diante, a medicina já não pode resolver. Alguém bebe muito, chega à cirrose, precisa de um transplante, mas o transplante é impossível porque o rim é hipertenso, ou ganha 30 quilos de peso e aparece a diabetes. São problemas que já não se resolvem. Por isso a prevenção é o que mais importa. Ninguém pode evitar algumas doenças, mas a prevenção permite adiá-las para um período muito posterior. Há frases mágicas muito enganadoras, como dizer que a saúde é responsabilidade do Estado. Como assim? O que o Estado tem a ver com a doença de alguém que fuma durante 40 anos? A saúde individual é, em primeiro lugar, responsabilidade de cada pessoa. Não se pode detonar a própria saúde e depois achar que alguém tem obrigação de cuidar dela.

Em geral, as pessoas têm uma correta percepção do valor do tempo que passa?
O que diferencia o adolescente do homem maduro é que na adolescência ninguém pensa no tempo. Isso permite a irresponsabilidade. Com a idade, vem a consciência de que o tempo é curto. Aos 20 anos, eu ia a três festas na mesma noite e continuava ansioso, com medo de ter perdido a quarta. Hoje, escolho: fi co em casa com minha neta ou vou escrever. A sabedoria da maturidade é perceber que o tempo é finito e que é preciso concentrar esforços para o que considera importante. Você começa a fi car econômico.

Qual a principal lição que o senhor tirou do próprio percurso de vida até agora?
Estou convencido de que em cada etapa da vida a responsabilidade individual é muito importante. Há coisas inevitáveis, mas a maioria dos problemas da velhice é evitável. Um homem que, aos 60 anos, nunca fez um exame de toque retal, até que apareça com um câncer já incurável... Por que não fez o exame? Há informação abundante sobre isso, no jornal, na TV. Depois, quando o câncer já está disseminado, ele reclama da sorte? A natureza é impiedosa. Eu mesmo fui para a Amazônia, esqueci de renovar a vacina contra febre amarela e quase morri. Lá, tive a noção exata: estou morrendo por culpa minha. Temos de evitar o encontro com problemas que nós mesmos criamos. Quando moleque, uma vez, li um gibi que contava a história de um cara que estava pescando, um raio caiu perto dele e ele desmaiou. Acordou meio estranho, mas foi para casa, dormiu e sonhou que, em Londres, haveria um grande desastre, numa estação de trem, na manhã seguinte. Acordou e ouviu, no rádio, a notícia de um terrível desastre de trem. E, no jornal, ele viu a imagem do sonho. Na noite seguinte, outro sonho lhe anuncia outro acidente. Então, o homem corre à estação e põe-se a querer impedir que o trem parta, porque vai haver um acidente. E, dali em diante, a cada sonho, tenta impedir que aconteça o desastre previsto, e não consegue impedir coisa alguma. Sinto-me um pouco como esse homem, tentando evitar desastres anunciados. Alguém que fume por 30 anos, que coma doces demais, que seja sedentário, não tenho dúvida: aí está alguém que tem um encontro marcado com a tragédia, com a infelicidade. A vida é boa demais e curta demais para ser estragada por desleixo ou imprudência.



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