O que desencadeia a depressão?
Na velhice, às vezes,
ela aparece como um processo independente de qualquer
fator. Um dia, a pessoa acorda e sente-se diferente, depois
se sente pior e entra num quadro depressivo. Uma situação
de vida que entristece, e para a qual não se vê saída, pode
ser um gatilho. Ao contrário, se você se mantém ativo, integrado
ao mundo, convivendo com as pessoas, diminuem as
chances de depressão. Várias doenças neurológicas podem
começar com depressão: a doença de Parkinson e o próprio
Alzheimer. É preciso entender esses processos, para tratá-los
com drogas, que é o que funciona contra a depressão.
É possível prevenir a depressão?
Sabe-se ainda
muito pouco sobre a depressão. Até hoje, sequer se
demonstrou que o exercício físico pode preveni-la. Há
atletas que fi cam deprimidos. Não se pode dizer que a
depressão seja um fenômeno meramente bioquímico, de
neurotransmissores cujas concentrações se desorganizam
no cérebro. Além de alterações neurobioquímicas, há as
repercussões psicológicas, porque o cérebro funciona
como um conjunto. Essas doenças em que não se consegue
separar o físico e o psicológico são muito complicadas.
Há jovens deprimidos. Há crianças deprimidas. O
pior da depressão é que não se encontra nada de objetivo
como desencadeador. E aí a família começa a infernizar
a vida do deprimido; quer arrancá-lo à doen ça, arrastá-lo
para festas. É impossível, para o deprimido, expor-se,
ter de sorrir, ser bem-educado. A família “conclui” que
o doente não reage porque não quer. Mas a doença é
esta: o deprimido não consegue reagir. Se conseguisse
reagir, não estaria doente. Felizmente já há muita coisa
efi caz em termos de medicação.
É verdade que os velhos perdem
progressivamente a memória?
Há remédios efi cazes
para manter ou recuperar a
memória? Na memória, de fato,
está envolvido um problema de
atenção. Se se fazem cinco coisas
ao mesmo tempo – estou falando
no telefone, escrevendo no computador
e ouvindo uma conversa –,
muita coisa passa e não fica. Estão
começando a surgir as primeiras
drogas para reduzir a perda de memória
na velhice.
Como funciona o mecanismo da memória?
Há
neurônios que transmitem a informação em metros por
segundo. Para tirar o pé de cima de um cigarro aceso, o
impulso é transmitido em centésimos de segundo: a informação
vai até a medula, volta imediatamente e faz afastar
o pé. Na memória, a condução dos estímulos é muito mais lenta. Ela funciona por repetição. Por isso é preciso ler dez
vezes um poema para decorá-lo. E se depois de decorar um
poema você o deixa de lado por dez anos, quando você o
retoma, na primeira vez não lembra nada, porque mudou a
conformação da sinapse; mas bastam
duas leituras e você lembra o
poema inteiro. A conclusão é que a
memória pode ser exercitada.
Como falar em qualidade
de vida num país em que
a maioria da população
depende de uma estrutura
pública de saúde deficiente?
É preciso pensar, primeiramente,
em prevenção das
doenças. Tudo depende da vida
que se vive e de evitar a doença
antes que ela se instale. De um ponto em diante, a medicina
já não pode resolver. Alguém bebe muito, chega
à cirrose, precisa de um transplante, mas o transplante
é impossível porque o rim é hipertenso, ou ganha 30
quilos de peso e aparece a diabetes. São problemas que
já não se resolvem. Por isso a prevenção é o que mais
importa. Ninguém pode evitar algumas doenças, mas
a prevenção permite adiá-las para um período muito
posterior. Há frases mágicas muito enganadoras, como
dizer que a saúde é responsabilidade do Estado. Como
assim? O que o Estado tem a ver com a doença de alguém
que fuma durante 40 anos? A saúde individual
é, em primeiro lugar, responsabilidade de cada pessoa.
Não se pode detonar a própria saúde e depois achar
que alguém tem obrigação de cuidar dela.
Em geral, as pessoas têm
uma correta percepção do
valor do tempo que passa?
O que diferencia o adolescente do
homem maduro é que na adolescência
ninguém pensa no tempo.
Isso permite a irresponsabilidade.
Com a idade, vem a consciência
de que o tempo é curto. Aos 20
anos, eu ia a três festas na mesma
noite e continuava ansioso,
com medo de ter perdido a quarta.
Hoje, escolho: fi co em casa com
minha neta ou vou escrever. A sabedoria
da maturidade é perceber que o tempo é finito e
que é preciso concentrar esforços para o que considera
importante. Você começa a fi car econômico.
Qual a principal lição que o senhor tirou do próprio
percurso de vida até agora?
Estou convencido
de que em cada etapa da vida a responsabilidade individual
é muito importante. Há coisas inevitáveis, mas a maioria
dos problemas da velhice é evitável. Um homem que,
aos 60 anos, nunca fez um exame de toque retal, até que
apareça com um câncer já incurável... Por que não fez o
exame? Há informação abundante sobre isso, no jornal,
na TV. Depois, quando o câncer já está disseminado, ele
reclama da sorte? A natureza é impiedosa. Eu mesmo fui
para a Amazônia, esqueci de renovar a vacina contra febre
amarela e quase morri. Lá, tive a noção exata: estou morrendo
por culpa minha. Temos de evitar o encontro com
problemas que nós mesmos criamos. Quando moleque,
uma vez, li um gibi que contava a história de um cara que
estava pescando, um raio caiu perto dele e ele desmaiou.
Acordou meio estranho, mas foi para casa, dormiu e sonhou
que, em Londres, haveria um grande desastre, numa
estação de trem, na manhã seguinte. Acordou e ouviu,
no rádio, a notícia de um terrível desastre de trem. E,
no jornal, ele viu a imagem do sonho. Na noite seguinte,
outro sonho lhe anuncia outro acidente. Então, o homem
corre à estação e põe-se a querer impedir que o trem parta,
porque vai haver um acidente. E, dali em diante, a cada
sonho, tenta impedir que aconteça o desastre previsto, e
não consegue impedir coisa alguma. Sinto-me um pouco
como esse homem, tentando evitar desastres anunciados.
Alguém que fume por 30 anos, que coma doces demais,
que seja sedentário, não tenho dúvida: aí está alguém
que tem um encontro marcado com a tragédia, com a
infelicidade. A vida é boa demais e curta demais para ser
estragada por desleixo ou imprudência.