O tempo passa...
Revista Fantástico - número 3

Essa nova revolução pode ajudar a acabar com a imagem do velho como uma fi gura “inútil”, tão difundida no Brasil?
A imagem dos velhos como peso morto já mudou bastante. A explicação deve ser econômica, porque o fato é que os homens e mulheres de mais idade trabalham muito. Mesmo nas populações de baixa renda – ando muito pelas periferias, sou testemunha dessa realidade – são o avô e a avó que muitas vezes sustentam a família. A aposentadoria de um casal, uns R$ 700, é uma fortuna nas áreas pobres.

A vida sexual dos idosos mudou? Não há mais preconceito contra o sexo na velhice?
Nos homens, o sexo na velhice é mais aceito. Mas as mulheres de 60 anos ou mais que têm vida sexual ainda sofrem preconceito. Ninguém acha ridícula uma senhora que ande no parque ou freqüente uma academia. Mas ainda há preconceito contra atividades perfeitamente normais, especialmente relacionadas às questões sexuais.

Qual a grande diferença na vida sexual dos jovens
e dos velhos?

A diferença fundamental entre eles é o nível de testosterona nos homens. A libido diminui com a idade. Agora, com esses remédios que garantem a ereção, está se observando um efeito reverso; com eles, os homens estão recuperando também a libido. Claro que há sexo sem ereção, mas o que se está observando é que a ereção pode provocar e recuperar a libido. É surpreendente, porque essas drogas agem só nos corpos cavernosos. Mas a ereção faz pensar em sexo. Conheço um caso de um homem de 90 anos, casado com uma mulher de 88, há 50, e o casal recuperou a vida sexual. É um privilégio dessa geração. Acho que essas drogas foram uma das grandes invenções da medicina.

O fim da capacidade reprodutiva tem um papel na redução da libido e no preconceito contra o sexo na maturidade?
Para a mulher, a perda da capacidade de ter filhos pode influir na diminuição da atividade sexual. Mas um homem de 70 anos ainda pode ter fi lhos. Acho que é uma questão econômica que contribui para a marginalização social dos velhos. E há o outro lado. Olhamos para os velhos com pena, como pessoas abandonadas. Mas o fato é que muita gente nunca fez nada para construir uma convivência melhor com os outros. Se alguém passa a vida sem construir relações, chega uma hora em que lamenta ter sido abandonado. Isso tem a ver com a responsabilidade de cada um em relação ao próprio futuro.

Como conciliar a inevitá vel decadência natural da idade com o bem-estar físico?
É possível os idosos viverem com bem-estar. Hoje, com 64 anos, sinto-me muito melhor, fi sicamente, do que aos 25. Era fumante e não conseguia correr 5 quilômetros. Hoje, corro 30, 40. Sempre se pode melhorar a condição física, independentemente da idade. A diferença mais crucial entre um organismo velho e um jovem é que o envelhecimento diminui a capacidade de reagir à sobrecarga com rapidez e efi ciência. Mas se um homem levanta cedo, corre 40 minutos, sobe escadas, pega na enxada e tem vida ativa pode chegar aos 75 ou 80 anos em condições físicas normais, com disposição, sem precisar de remédios.

É possível prevenir as doenças que aparecem na terceira idade, como o mal de Alzheimer?
Há duas coisas que parecem funcionar na prevenção: atividade física e atividade mental. Quando essas doenças se instalam, há tratamento, exercícios. E hoje praticamente todas as famílias têm pessoas nessas condições. As coisas vão mudando. Está surgindo o “cuidador”, uma figura nova no âmbito de muitas famílias, porque esses doentes exigem atenção 24 horas por dia.

Há algo de condenável em internar um idoso numa instituição?
Dependendo da estrutura familiar, a solução de internar o idoso pode ser melhor do que deixálo em casa. Hoje, ninguém pode parar a vida para acudir um idoso 24 horas por dia. O Estado vai ter de evoluir para dar esse atendimento. Teremos de criar estruturas que recebam essas pessoas, de todas as classes sociais.

Até que idade se pode trabalhar?
Não há limite. Tudo depende da energia, da criatividade e do interesse pelo mundo de cada um. Para um idoso, o contato com pessoas de todas as idades é muito importante.

Muitos velhos têm medo da atividade física, acham que ela pode fazer mais mal do que bem.
Atividade física é essencial. Não só porque melhora as funções vitais, mas porque dá autoconfi ança. Aprendi, anos atrás, com um cliente, a subir escadas. Moro no 15º andar. Às vezes, subo dez vezes aquela escada. Depois tomo um banho e saio para trabalhar. E sinto uma enorme confi ança em meu corpo! Outro fator importante é manter-se interessado pelos temas do mundo, lendo, estudando. Se pudesse resumir as recomendações para retardar o envelhecimento, seriam duas: atividade física e leitura. A leitura mexe com vários centros cerebrais. Não há atividade mais rica.

O que é mais importante, atividade física ou dieta correta?
As pessoas que envelhecem bem, em minha experiência, são as ativas. O exercício é mais decisivo. E há estudos que o comprovam. Um célebre estudo feito nos EUA compara pessoas com sobrepeso e Índice de Massa Corpórea normal. IMC é o peso em quilogramas dividido pela altura ao quadrado; o normal é de 18 e 25; de 25 a 30, é sobrepeso. O estudo verifi cou que pessoas com atividade física, mesmo quando têm sobrepeso, morrem menos do que as que têm peso normal e são sedentárias. O que faz a diferença não é pesar um pouco a mais. É a vida sedentária. Nela mora o perigo.

O tratamento ortomolecular posterga o envelhecimento?
É o sonho do homem: tomar dez vitaminas no almoço e 12 no jantar e ganhar a longevidade. Então você fuma, come e bebe mais do que devia e tem a ilusão de que aquelas medidas impedirão que aconteça alguma coisa. Não há tratamento médico capaz de aumentar a longevidade. Ninguém quer fazer exercício e comer pouco. Não digo passar fome, mas não exagerar. Comer apenas o que se tem de comer, para o estilo de vida que temos. Com o tempo, a vida muda e a dieta tem de mudar. Mas, aí, já se estabeleceu o projeto-padrão da adolescência. Adolescentes comem muito. Aos 50 anos, não se pode comer como na adolescência.

Qual é o papel da vida afetiva e familiar no processo de envelhecimento?
Uma vida afetiva e familiar tem impacto positivo. Entre viúvos, a mortalidade é mais alta no primeiro ano de viuvez. Essa rede afetiva que construímos em torno de nós é muito importante; nos deixa mais felizes, torna a vida mais suportável.



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