Essa nova revolução pode ajudar a acabar com
a imagem do velho como uma fi gura “inútil”,
tão difundida no Brasil?
A imagem dos velhos como
peso morto já mudou bastante. A explicação deve ser
econômica, porque o fato é que os homens e mulheres
de mais idade trabalham muito. Mesmo nas populações
de baixa renda – ando muito pelas periferias, sou testemunha
dessa realidade – são o avô e a avó que muitas
vezes sustentam a família. A aposentadoria de um casal,
uns R$ 700, é uma fortuna nas áreas pobres.
A vida sexual dos idosos mudou?
Não há mais
preconceito contra o sexo na velhice?
Nos homens,
o sexo na velhice é mais aceito. Mas as mulheres
de 60 anos ou mais que têm vida sexual ainda sofrem
preconceito. Ninguém acha ridícula uma senhora que
ande no parque ou freqüente uma academia. Mas ainda
há preconceito contra atividades perfeitamente normais,
especialmente relacionadas às questões sexuais.
Qual a grande diferença na vida sexual dos jovens
e dos velhos?
A diferença fundamental entre eles
é o nível de testosterona nos homens. A libido diminui
com a idade. Agora, com esses remédios que garantem a
ereção, está se observando um efeito reverso; com eles,
os homens estão recuperando também a libido. Claro
que há sexo sem ereção, mas o que se está observando
é que a ereção pode provocar e recuperar a libido. É
surpreendente, porque essas drogas agem só nos corpos
cavernosos. Mas a ereção faz pensar em sexo. Conheço
um caso de um homem de 90 anos, casado com uma
mulher de 88, há 50, e o casal recuperou a vida sexual.
É um privilégio dessa geração. Acho que essas drogas
foram uma das grandes invenções da medicina.
O fim da capacidade reprodutiva
tem um papel na
redução da libido e no preconceito
contra o sexo na
maturidade?
Para a mulher,
a perda da capacidade de ter filhos pode influir na diminuição
da atividade sexual. Mas um homem
de 70 anos ainda pode ter
fi lhos. Acho que é uma questão
econômica que contribui para a
marginalização social dos velhos.
E há o outro lado. Olhamos para
os velhos com pena, como pessoas abandonadas. Mas o
fato é que muita gente nunca fez nada para construir uma
convivência melhor com os outros. Se alguém passa a vida
sem construir relações, chega uma hora em que lamenta
ter sido abandonado. Isso tem a ver com a responsabilidade
de cada um em relação ao próprio futuro.
Como conciliar a inevitá vel decadência natural
da idade com o bem-estar físico?
É possível os idosos
viverem com bem-estar. Hoje, com 64 anos, sinto-me
muito melhor, fi sicamente, do que aos 25. Era fumante
e não conseguia correr 5 quilômetros. Hoje, corro 30,
40. Sempre se pode melhorar a condição física, independentemente
da idade. A diferença mais crucial entre
um organismo velho e um jovem é que o envelhecimento
diminui a capacidade de reagir à sobrecarga com rapidez
e efi ciência. Mas se um homem levanta cedo, corre 40
minutos, sobe escadas, pega na enxada e tem vida ativa
pode chegar aos 75 ou 80 anos em condições físicas normais,
com disposição, sem precisar de remédios.
É possível prevenir as doenças que aparecem
na terceira idade, como o mal de Alzheimer?
Há
duas coisas que parecem funcionar na prevenção: atividade
física e atividade mental. Quando essas doenças se
instalam, há tratamento, exercícios. E hoje praticamente
todas as famílias têm pessoas nessas condições. As coisas
vão mudando. Está surgindo o “cuidador”, uma figura
nova no âmbito de muitas famílias, porque esses doentes
exigem atenção 24 horas por dia.
Há algo de condenável em internar um idoso
numa instituição?
Dependendo da estrutura familiar,
a solução de internar o idoso pode ser melhor do que deixálo
em casa. Hoje, ninguém pode parar a vida para acudir
um idoso 24 horas por dia. O Estado vai ter de evoluir para
dar esse atendimento. Teremos de criar estruturas que
recebam essas pessoas, de todas as classes sociais.
Até que idade se pode trabalhar?
Não há limite.
Tudo depende da energia, da criatividade e do interesse pelo mundo de cada um. Para um idoso, o contato com
pessoas de todas as idades é muito importante.
Muitos velhos têm medo da atividade física,
acham que ela pode fazer mais mal do que bem.
Atividade física é essencial. Não só porque melhora as
funções vitais, mas porque dá autoconfi ança. Aprendi, anos
atrás, com um cliente, a subir escadas. Moro no 15º andar.
Às vezes, subo dez vezes aquela escada. Depois tomo um
banho e saio para trabalhar. E sinto uma enorme confi ança
em meu corpo! Outro fator importante é manter-se interessado
pelos temas do mundo, lendo, estudando. Se pudesse
resumir as recomendações para retardar o envelhecimento,
seriam duas: atividade física e leitura. A leitura mexe com
vários centros cerebrais. Não há atividade mais rica.
O que é mais importante, atividade física ou
dieta correta?
As pessoas que envelhecem bem, em
minha experiência, são as ativas. O exercício é mais decisivo.
E há estudos que o comprovam. Um célebre estudo
feito nos EUA compara pessoas com sobrepeso e Índice
de Massa Corpórea normal. IMC é o peso em quilogramas
dividido pela altura ao quadrado; o normal é de 18 e 25; de
25 a 30, é sobrepeso. O estudo verifi cou que pessoas com
atividade física, mesmo quando têm sobrepeso, morrem
menos do que as que têm peso normal e são sedentárias.
O que faz a diferença não é pesar um pouco a mais. É a
vida sedentária. Nela mora o perigo.
O tratamento ortomolecular posterga o envelhecimento?
É o sonho do homem: tomar dez vitaminas no almoço
e 12 no jantar e ganhar a longevidade. Então você fuma,
come e bebe mais do que devia e tem
a ilusão de que aquelas medidas impedirão
que aconteça alguma coisa.
Não há tratamento médico capaz de
aumentar a longevidade. Ninguém
quer fazer exercício e comer pouco.
Não digo passar fome, mas não exagerar.
Comer apenas o que se tem
de comer, para o estilo de vida que
temos. Com o tempo, a vida muda
e a dieta tem de mudar. Mas, aí, já
se estabeleceu o projeto-padrão da
adolescência. Adolescentes comem
muito. Aos 50 anos, não se pode comer
como na adolescência.
Qual é o papel da vida afetiva e familiar no processo
de envelhecimento?
Uma vida afetiva e familiar
tem impacto positivo. Entre viúvos, a mortalidade é mais
alta no primeiro ano de viuvez. Essa rede afetiva que
construímos em torno de nós é muito importante; nos
deixa mais felizes, torna a vida mais suportável.