A idade da aposentadoria, do tempo livre para
brincar com os netos, do jogo com os amigos e do
ócio feliz é vista com terror por muita gente. Por
que é tão difícil aceitar a chegada da velhice?
A velhice assusta por causa da decrepitude física. Você
passa a sentir que seu corpo começa a perder a capacidade
de executar algumas tarefas, o impacto de seu rosto nas
pessoas vai fi cando diferente. Dá uma sensação de que a
vida está chegando ao fi m, que a parte melhor já passou.
Por isso, acho, as pessoas fogem da velhice como o diabo
da cruz. É um problema. Não se pode impedir a chegada
da velhice. Sentir-se na obrigação de manter a aparência
física da juventude, de voltar a ser o que se era, só agrava
o problema, é uma tarefa inglória.
No célebre poema dramático de Goethe, Dr. Faustus,
a personagem faz um pacto com o diabo em
troca da eterna juventude. É possível ter uma
vida longa e feliz sem ter de vender a alma ao
demônio?
É possível manter o corpo e o espírito saudáveis
sem vender a alma ao diabo. Estou fi rmemente convencido
disso. Claro que ninguém está livre de ter um tumor no
cérebro, de que uma artéria se rompa, de ser atropelado.
Mas, exceto o imprevisível, o processo de envelhecimento
pode ser vivido com saúde. Não gosto muito dessas palavras
“saúde” e “saudável”, porque dão a impressão de que todos
têm de viver sempre felizes, e isso não é necessariamente
verdade. Mas, no conceito moderno, o processo de envelhecimento
já não tem de estar associado à doença. Quando
me formei, nos anos 60, entendia-se que “pressão normal”
era 12 por 8 e que até 13 por 9 tudo bem. A partir dos 40
anos, aceitava-se um aumento de 1 ponto por década.
Então, se alguém de 50 anos tinha pressão de 14 por 10,
isso era aceito como normal. Com 60 anos, 15 por 11 se
aceitava como normal. Hoje, essas pessoas seriam consideradas
totalmente hipertensas; o limite é 12 por 8 para
qualquer idade. Em uma glicemia de jejum, para medir o
açúcar no sangue, o normal é 60, mas se aceitavam 120, 130
como números normais para pessoas mais maduras. Hoje
se sabe que essa população vai virar diabética, que precisa
ter glicemia abaixo de 100 em qualquer idade. Os conceitos
e os paradigmas mudaram na medicina. E o motivo é
que as pessoas começaram a viver mais. Há 20, 30 anos,
um homem de 60 anos era “sexagenário”; na prática, um
velho. Hoje, essas pessoas estão aí, trabalhando, cuidando
da vida, viajando, se divertindo. É preciso desvincular os
conceitos de envelhecimento e doença.
Por que estamos vivendo mais?
O século 20 experimentou
um aumento de expectativa de vida que nunca
antes a humanidade experimentara. Nos países adiantados,
a expectativa de vida praticamente dobrou. Na Europa, no
início do século 20, a expectativa de vida era de 40 anos.
Hoje, na Espanha, França, é 80. Dobrou. Por quê? Primeiro,
por causa do saneamento básico, do acesso à água tratada. As
pessoas começaram a tomar banho, a ter melhores hábitos de
higiene. Isso diminuiu muito a contaminação e a difusão de
doenças. Depois, houve a diminuição notável da mortalidade
infantil, que era brutal. As vacinas e antibióticos fi zeram uma
enorme diferença. Antes, as crianças morriam de amigdalite.
E, na segunda metade do século 20, fi nalmente entendemos
o papel crucial da atividade física no bem-estar e na saúde.
Havia um dogma da medicina antiga pelo qual, a partir dos
50 anos, as pessoas não deviam fazer esforço físico. Os aposentados
fi cavam sentados na cadeira da sala, não se mexiam
e morriam do coração. A mudança na prevenção das doenças
cardiovasculares também fez enorme diferença.
Ainda haverá ganhos importantes na longevidade?
Ocorrerão pequenos ganhos, mas não haverá o
mesmo surto de aumento do século passado. Hoje, para
que a média seja puxada para 160 anos, seria preciso curar
uma quantidade enorme de doenças degenerativas, cardiovasculares,
neurológicas, câncer etc. Essas doenças são
muito mais difíceis de curar.
A percepção pública do
envelhecimento ainda é
muito negativa. Há algo de
positivo na velhice?
Acho
que a percepção da velhice mudou
bastante, e para melhor.
Na década de 60, só os jovens
interessavam. Curiosamente, a
mesma geração que provocou a
revolução juvenil dos anos 60
está provocando essa outra revolução,
da vida mais longa e da
reavaliação da idade madura. É
nossa geração. Nos anos 60, todos os homens e mulheres
por volta dos 60 anos eram considerados velhos. Eram
sedentários, fora de forma, acabados, aposentados ou
parando de trabalhar. E fi cavam esperando a morte.
Hoje, uma quantidade enorme de pessoas com mais de
70 anos produz, tem vida ativa e interessante.