O tempo passa...
Revista Fantástico - número 3

A idade da aposentadoria, do tempo livre para brincar com os netos, do jogo com os amigos e do ócio feliz é vista com terror por muita gente. Por que é tão difícil aceitar a chegada da velhice?
A velhice assusta por causa da decrepitude física. Você passa a sentir que seu corpo começa a perder a capacidade de executar algumas tarefas, o impacto de seu rosto nas pessoas vai fi cando diferente. Dá uma sensação de que a vida está chegando ao fi m, que a parte melhor já passou. Por isso, acho, as pessoas fogem da velhice como o diabo da cruz. É um problema. Não se pode impedir a chegada da velhice. Sentir-se na obrigação de manter a aparência física da juventude, de voltar a ser o que se era, só agrava o problema, é uma tarefa inglória.

No célebre poema dramático de Goethe, Dr. Faustus, a personagem faz um pacto com o diabo em troca da eterna juventude. É possível ter uma vida longa e feliz sem ter de vender a alma ao demônio?
É possível manter o corpo e o espírito saudáveis sem vender a alma ao diabo. Estou fi rmemente convencido disso. Claro que ninguém está livre de ter um tumor no cérebro, de que uma artéria se rompa, de ser atropelado. Mas, exceto o imprevisível, o processo de envelhecimento pode ser vivido com saúde. Não gosto muito dessas palavras “saúde” e “saudável”, porque dão a impressão de que todos têm de viver sempre felizes, e isso não é necessariamente verdade. Mas, no conceito moderno, o processo de envelhecimento já não tem de estar associado à doença. Quando me formei, nos anos 60, entendia-se que “pressão normal” era 12 por 8 e que até 13 por 9 tudo bem. A partir dos 40 anos, aceitava-se um aumento de 1 ponto por década. Então, se alguém de 50 anos tinha pressão de 14 por 10, isso era aceito como normal. Com 60 anos, 15 por 11 se aceitava como normal. Hoje, essas pessoas seriam consideradas totalmente hipertensas; o limite é 12 por 8 para qualquer idade. Em uma glicemia de jejum, para medir o açúcar no sangue, o normal é 60, mas se aceitavam 120, 130 como números normais para pessoas mais maduras. Hoje se sabe que essa população vai virar diabética, que precisa ter glicemia abaixo de 100 em qualquer idade. Os conceitos e os paradigmas mudaram na medicina. E o motivo é que as pessoas começaram a viver mais. Há 20, 30 anos, um homem de 60 anos era “sexagenário”; na prática, um velho. Hoje, essas pessoas estão aí, trabalhando, cuidando da vida, viajando, se divertindo. É preciso desvincular os conceitos de envelhecimento e doença.

Por que estamos vivendo mais?
O século 20 experimentou um aumento de expectativa de vida que nunca antes a humanidade experimentara. Nos países adiantados, a expectativa de vida praticamente dobrou. Na Europa, no início do século 20, a expectativa de vida era de 40 anos. Hoje, na Espanha, França, é 80. Dobrou. Por quê? Primeiro, por causa do saneamento básico, do acesso à água tratada. As pessoas começaram a tomar banho, a ter melhores hábitos de higiene. Isso diminuiu muito a contaminação e a difusão de doenças. Depois, houve a diminuição notável da mortalidade infantil, que era brutal. As vacinas e antibióticos fi zeram uma enorme diferença. Antes, as crianças morriam de amigdalite. E, na segunda metade do século 20, fi nalmente entendemos o papel crucial da atividade física no bem-estar e na saúde. Havia um dogma da medicina antiga pelo qual, a partir dos 50 anos, as pessoas não deviam fazer esforço físico. Os aposentados fi cavam sentados na cadeira da sala, não se mexiam e morriam do coração. A mudança na prevenção das doenças cardiovasculares também fez enorme diferença.

Ainda haverá ganhos importantes na longevidade?
Ocorrerão pequenos ganhos, mas não haverá o mesmo surto de aumento do século passado. Hoje, para que a média seja puxada para 160 anos, seria preciso curar uma quantidade enorme de doenças degenerativas, cardiovasculares, neurológicas, câncer etc. Essas doenças são muito mais difíceis de curar.

A percepção pública do envelhecimento ainda é muito negativa. Há algo de positivo na velhice?
Acho que a percepção da velhice mudou bastante, e para melhor. Na década de 60, só os jovens interessavam. Curiosamente, a mesma geração que provocou a revolução juvenil dos anos 60 está provocando essa outra revolução, da vida mais longa e da reavaliação da idade madura. É nossa geração. Nos anos 60, todos os homens e mulheres por volta dos 60 anos eram considerados velhos. Eram sedentários, fora de forma, acabados, aposentados ou parando de trabalhar. E fi cavam esperando a morte. Hoje, uma quantidade enorme de pessoas com mais de 70 anos produz, tem vida ativa e interessante.



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