O Brasão do Príncipe
Revista Fantástico - número 3

Cáspite!”, exclamou Pedro.

Oh, merde alors!”, suspirou Didi.

“Raios me partam!”, grunhiu o soldado – mas, ao se ver exposto pelo príncipe, estalou os calcanhares e perfilou-se de pronto em posição de sentido.

“O que significa isso, mademoiselle?”, rugiu Pedro, num francês ainda mais estropiado, quase em tiras. Didi Chérie, titubeante, ia começar a falar, mas preferiu simular um desmaio. Recobrou-se quando o soldado, galantemente, se interpôs e a recolheu em pleno ar. E, para Pedro:

“Perdão, alteza, mas a culpa não cabe a mademoiselle”, disse o soldado. “Cabe a mim, que há duas semanas me intrometi em seu camarim e a fiz sucumbir a meus encantos.”

A arrogância! A audácia! O fanfarrão! Pedro viu tudo vermelho a sua frente. Com que, então, um reles miliciano do coronel Vidigal ousava dirigir-lhe a palavra naquele tom de intimidade, jactando-se como se fossem camaradas de taberna ou de estrebaria! E só agora Pedro entendia por que o gorducho encarregado do teatro estava tão nervoso – porque sabia que Didi Chérie tinha visita no camarim. Um olhar de esguelha revelou-lhe que Didi Chérie, assustada, temia pela sorte do namorado.

Mas Pedro percebeu que não podia partir para cima do soldado às cegas, como se fossem rufiões de mafuá. Além disso, o outro também era jovem, alto e robusto, com o dólmã azul acolchoado de músculos. Numa luta a socos, em que se atracassem e rolassem pelo chão, seria um oponente respeitável, talvez invencível.

Mas que diabo! Ele, Pedro, era o príncipe e, por isso, intocável. O outro haveria de respeitá-lo. E Pedro já começava a descalçar a luva da mão direita para aplicar-lhe friamente uns tabefes quando o soldado falou:

“Será justo, alteza, humilharme na presença desta menina que, até há pouco, me via como um homem a quem ela não conseguiu resistir?”.

Pedro, mais pasmo ainda, interrompeu seu gesto em meio, segurando os dedos das luvas. Antes que ele pudesse retrucar, o soldado voltou a falar, com uma voz que sabia a cinismo, humor e cumplicidade:

“Não me reconheceis, Pedro?” – e deu um passo para o lado, a fim de levar o rosto sorridente para mais perto do bico de luz que pendia sobre o espelho.

Pedro o via agora como que pela primeira vez. Seis anos se haviam passado, e numa fase em que os rapazes mudam muito: as feições se transformam, os olhos ficam mais duros, as bochechas dão lugar a pêlos – e o soldado usava fartos bigodes e suíças. Mas não havia dúvida:

“Leonardo!”.



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