“Cáspite!”, exclamou Pedro.
“Oh, merde alors!”, suspirou Didi.
“Raios me partam!”, grunhiu o soldado – mas, ao se ver
exposto pelo príncipe, estalou os calcanhares e perfilou-se
de pronto em posição de sentido.
“O que significa isso, mademoiselle?”, rugiu Pedro, num
francês ainda mais estropiado, quase em tiras.
Didi Chérie, titubeante, ia começar a falar, mas preferiu
simular um desmaio. Recobrou-se quando o soldado, galantemente,
se interpôs e a recolheu em pleno ar. E, para Pedro:
“Perdão, alteza, mas a culpa não cabe a mademoiselle”, disse
o soldado. “Cabe a mim, que há duas semanas me intrometi
em seu camarim e a fiz sucumbir a meus encantos.”
A arrogância! A audácia! O fanfarrão! Pedro viu tudo
vermelho a sua frente. Com que, então, um reles miliciano
do coronel Vidigal ousava dirigir-lhe a palavra naquele tom de intimidade, jactando-se como se fossem camaradas de
taberna ou de estrebaria! E só agora Pedro entendia por
que o gorducho encarregado do teatro estava tão nervoso –
porque sabia que Didi Chérie tinha visita no camarim. Um
olhar de esguelha revelou-lhe que Didi Chérie, assustada,
temia pela sorte do namorado.
Mas Pedro percebeu que não podia partir para cima do
soldado às cegas, como se fossem rufiões de mafuá. Além
disso, o outro também era jovem, alto e robusto, com o
dólmã azul acolchoado de músculos. Numa luta a socos,
em que se atracassem e rolassem pelo chão, seria um
oponente respeitável, talvez invencível.
Mas que diabo! Ele, Pedro, era o príncipe e, por isso,
intocável. O outro haveria de
respeitá-lo. E Pedro já começava
a descalçar a luva da mão direita
para aplicar-lhe friamente uns tabefes
quando o soldado falou:
“Será justo, alteza, humilharme
na presença desta menina
que, até há pouco, me via como
um homem a quem ela não conseguiu
resistir?”.
Pedro, mais pasmo ainda, interrompeu
seu gesto em meio,
segurando os dedos das luvas.
Antes que ele pudesse retrucar,
o soldado voltou a falar, com uma
voz que sabia a cinismo, humor
e cumplicidade:
“Não me reconheceis, Pedro?” –
e deu um passo para o lado, a fim
de levar o rosto sorridente para mais perto do bico de luz
que pendia sobre o espelho.
Pedro o via agora como que pela primeira vez. Seis anos
se haviam passado, e numa fase em que os rapazes mudam
muito: as feições se transformam, os olhos ficam mais
duros, as bochechas dão lugar a pêlos – e o soldado usava
fartos bigodes e suíças. Mas não havia dúvida:
“Leonardo!”.